Psicopedagogia da Língua Materna

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A comunicação é de extrema importância para uma vida em coletividade. Evidentemente, indivíduos que dominam a linguagem têm maiores e melhores recursos verbais, se sobressaem, têm suas chances aumentadas no mercado de trabalho e maior visibilidade em suas atividades, mesmo que estas sejam apenas hobbies, como por exemplo, escrever em um blog. Por conseguinte, argumentam com mais facilidade, obtendo certa vantagem em relação a seus interlocutores, ao expressar suas opiniões. Segundo Fiorin e Savioli, “comunicar é agir sobre o outro e, por conseguinte, não é só levá-lo a receber e compreender mensagens, mas é fazê-lo aceitar o que é transmitido, crer naquilo que se diz, fazer aquilo a que se propõe, […] comunicar não é fazer saber, mas principalmente fazer crer e fazer fazer”.

E falando-se em “fazer fazer”, para que uma pessoa possa ser considerada um comunicador hábil, é importante que ela desenvolva algumas competências linguísticas, a saber, a oralidade e a escrita, a partir do ensino da língua materna, nos primeiros anos do Ensino Fundamental I. No entanto, o que se vê nas escolas, é bem diferente dessa perspectiva dual e interativa. Os professores do Ensino Fundamental I trabalham sob outra perspectiva de ensino, a da “análise” da “escrita”, por meio das definições e regras da gramática normativa.

Isto se dá pelo fato de que o modelo tradicionalmente seguido pelas escolas, sempre levou em consideração a matéria a ser ensinada, e toda a estrutura em torno dessa proposta, de forma pré-determinada, deixando de considerar fatores como o cognitivo da criança, as experiências previamente adquiridas (histórico social e familiar), a comunidade ou o grupo social em que vive, com suas necessidades e valores próprios, culturas, hábitos e costumes. O ideal seria que, a partir desses elementos já consolidados, se modificassem as técnicas de ensino, os manuais e todos os recursos envolvidos, inclusive o educador devidamente capacitado para trabalhar com as mais diferentes realidades em sala de aula.

Esta a escola moderna, com profissionais adaptados a esse modelo funcional, que veem na língua um caminho de construção do conhecimento, adaptável à visão de mundo da criança, do jovem e do adolescente. A língua como um instrumento identitário, utilitário, com um objetivo social, que amplia horizontes e permite incursões em qualquer área do saber.

Considere-se então, todos, sujeitos da ação, envolvidos direta ou indiretamente com o aprendizado da criança: aluno, professor, pais, escola e comunidade, destacando-se para o educador o papel de mediador na construção de conhecimento. Cabendo a ele, portanto, uma autoanálise pedagógica, com vistas a um melhor desempenho próprio e de seus alunos. As inúmeras regras e definições da gramática tolhem a liberdade e o campo de atuação do aluno, na medida em que desenvolve uma habilidade parcial (análise prescritiva). Enquanto que para uma maior compreensão dos fatos linguísticos, é preciso ter muito mais do que a capacidade de análise prescritiva de uma língua, é necessário a habilidade de organização das idéias, de interação com o outro, a interpretação e compreensão global de diversas modalidades de gêneros linguísticos, fazendo uso da língua oral e escrita.

Chama-se a isso de aprendizagem significativa, algo que não se limita à memorização de códigos gramaticais ou de julgamentos quanto a certo e errado de uma construção frasal. Tendo consciência do papel que exerce como agente de mudança na sociedade, o professor pode fazer de sua aula, não uma entidade estranha e alheia ao universo que o cerca, mas um ente totalmente integrado e envolvido com o contexto em que está inserido.

Questões muito delicadas envolvem essas premissas, professores mal preparados, desvalorização da categoria, com baixos salários e altíssimas cargas horárias que objetivando maior remuneração, ambiente de trabalho hostil, a começar pelos próprios educandos, entre outras. Dificilmente um aluno vai desenvolver o prazer pela leitura, com um professor que não tem o hábito de ler além do “obrigatório”, ou raramente uma criança vai adquirir competência na escrita com um professor que, “não gosta de escrever”. A falta de pesquisa e de leituras que incentivem a reflexão da prática pedagógica, bem como a utilização de manuais receituários, tecnicamente tradicionais na abordagem dos assuntos, em lugar de materiais modernos e mais funcionais, desqualificam cada vez mais os profissionais da educação. Conseqüentemente o despreparo reflete na educação e nos resultados obtidos com os alunos.

Vale ressaltar que a língua é a forma de expressão de um povo, o que significa dizer que ensinar língua é uma junção do processo educativo, de forma alguma, um ato isolado, já que dominar leitura, escrita e fala, envolve dominar, aprender e interagir melhor em todo o sistema educacional (outras disciplinas).

[Francisco Savioli e José Luiz Fiorin são professores de língua portuguesa e têm várias obras publicadas, entre elas o Manual do Candidato, publicado pela fundação Alexandre de Gusmão com vistas à preparação dos candidatos  à carreira diplomática.]